Uma pesquisa internacional mostra que a preocupação com os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho deixou de ser uma questão restrita aos grandes mercados de tecnologia. No Brasil, o receio aparece com força entre a população e também cresce entre os jovens, justamente quando as empresas aceleram a adoção da tecnologia.
O temor de perder empregos já aparece em grande parte do mundo
A percepção de que a inteligência artificial poderá reduzir empregos está presente em grande parte dos países analisados pelo Pew Research Center. Na pesquisa divulgada em setembro de 2026, pessoas em 34 dos 37 países considerados na análise geral tendem a acreditar que a IA levará a menos empregos do que a mais vagas nas próximas duas décadas.
O levantamento ouviu 42.151 pessoas em 36 países entre fevereiro e maio de 2026. Os Estados Unidos foram analisados separadamente por meio de duas pesquisas realizadas em períodos diferentes. O Pew é uma organização de pesquisa independente que produz estudos sobre opinião pública, comportamento social e tendências econômicas e tecnológicas.
A preocupação não é uniforme. Nos países de alta renda analisados, a mediana de adultos que esperam redução dos empregos chega a 55%, contra 36% nos países de renda média. Ao mesmo tempo, uma parcela relevante dos entrevistados ainda não sabe qual será o efeito da tecnologia sobre o mercado de trabalho.
A percepção não significa desemprego já provocado pela IA
Essa diferença é importante porque a pesquisa mede expectativas da população, e não contabiliza quantos empregos já desapareceram por causa da inteligência artificial.
O resultado mostra como trabalhadores e cidadãos estão interpretando uma transformação tecnológica que ainda está em andamento. A expectativa de redução de vagas pode refletir tanto experiências concretas com automação quanto incertezas sobre como as empresas utilizarão ferramentas capazes de executar tarefas antes realizadas por pessoas.
O cenário também ajuda a explicar por que a discussão sobre IA e empregos ganhou uma dimensão global. A tecnologia passou de uma ferramenta restrita a departamentos de tecnologia para sistemas utilizados em atendimento, programação, análise de documentos, marketing, pesquisa e operações empresariais.
No Brasil, 42% esperam redução de empregos com a IA

No Brasil, 42% dos entrevistados esperam que a inteligência artificial reduza o número de empregos nas próximas duas décadas.
No Brasil, a preocupação aparece em dois níveis. O levantamento mostra que 52% dos brasileiros estão mais preocupados do que animados com o avanço da inteligência artificial, percentual acima da mediana global de 37%.
Quando a pergunta é diretamente sobre empregos, 42% dos brasileiros acreditam que a IA reduzirá o número de vagas nos próximos 20 anos. Apenas 13% esperam aumento no número de empregos, enquanto uma parcela significativa ainda não sabe qual será o resultado.
Esse resultado coloca o mercado de trabalho no centro da percepção brasileira sobre a tecnologia. O receio não significa necessariamente rejeição à IA, mas mostra que uma parte relevante da população ainda não enxerga com clareza como os ganhos de produtividade poderão se transformar em novas oportunidades profissionais.
A preocupação brasileira acontece enquanto a adoção avança
Existe aí um contraste importante. Enquanto a população demonstra cautela, as empresas brasileiras estão ampliando o uso da tecnologia.
Um estudo da Strand Partners realizado para a AWS aponta que 50% das empresas brasileiras já utilizam IA, o equivalente a cerca de 12 milhões de negócios. O percentual era de 40% no levantamento anterior.
A mesma pesquisa mostra, porém, que adoção não significa maturidade. Entre as empresas brasileiras que já usam IA em nível avançado, 58% estão em um nível básico, 27% em nível intermediário e apenas 15% chegaram ao nível avançado.
O movimento cria uma situação em que trabalhadores e empresas avançam sobre o mesmo processo de transformação, mas a partir de perspectivas diferentes: organizações buscam produtividade e novos modelos de operação, enquanto profissionais tentam entender quais tarefas e competências continuarão valorizadas.
Geração Z entra no mercado com uma relação diferente com a IA
Os jovens adultos têm uma relação particularmente complexa com a inteligência artificial. A pesquisa do Pew Research Center mostra que pessoas de 18 a 34 anos são mais propensas que adultos de 50 anos ou mais a dizer que ouviram ou leram muito sobre IA nos países analisados.
Isso não significa que os jovens sejam simplesmente mais otimistas ou pessimistas. Em muitos países, eles apresentam sentimentos mistos: demonstram interesse pela tecnologia ao mesmo tempo em que reconhecem riscos associados ao seu impacto.
No Brasil, a preocupação entre os jovens também aumentou. O Pew identifica o país entre aqueles em que adultos mais jovens passaram a demonstrar maior apreensão com a IA em relação ao levantamento anterior.
O problema para quem ainda está construindo carreira
Para quem está no início da vida profissional, a discussão sobre IA tem uma característica diferente. Um trabalhador experiente já possui conhecimento acumulado, histórico profissional e domínio de processos. Quem está começando ainda precisa conquistar a primeira oportunidade para desenvolver essas competências.
Esse ponto encontra respaldo em dados recentes do Stanford Digital Economy Lab. Um estudo baseado em dados de folha de pagamento da ADP nos Estados Unidos não encontrou evidência de deslocamento generalizado de empregos em toda a economia, mas identificou uma diferença relevante entre trabalhadores jovens e experientes.
Entre trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações altamente expostas à IA, o nível de emprego estava cerca de 19% abaixo do que teria ocorrido se acompanhasse a evolução observada entre jovens da mesma idade em ocupações menos expostas. Os pesquisadores indicam que o efeito aparece principalmente na menor contratação de jovens, e não em uma onda de demissões.
O dado é específico do mercado americano e não pode ser aplicado automaticamente ao Brasil. Ainda assim, ele ajuda a explicar por que a entrada no mercado de trabalho pode se tornar uma das áreas mais observadas durante a expansão da IA.
Empresas aceleram a IA enquanto trabalhadores tentam entender o impacto

Empresas brasileiras aceleram a adoção da IA, mas ainda enfrentam desafios de capacitação, governança e mensuração dos resultados.
A adoção empresarial mostra que a inteligência artificial já está sendo incorporada às operações, mesmo que seus efeitos sobre o emprego ainda estejam em disputa.
No Brasil, o estudo da AWS e Strand Partners aponta que 68% das organizações aumentaram seus investimentos em IA no último ano. Entre as empresas que utilizam a tecnologia, 72% relatam ganhos de produtividade e 79% esperam que a IA contribua para o crescimento dos negócios nos 12 meses seguintes.
O avanço não acontece apenas em grandes empresas de tecnologia. A inteligência artificial está sendo incorporada a áreas como programação, atendimento, análise de dados, produção de conteúdo, pesquisa e processos administrativos.
Um exemplo desse movimento já apareceu no próprio Notícia Tech, em uma análise sobre como a B3 utiliza IA para programação e reduziu em 35% o tempo de entrega. O caso ajuda a visualizar uma das formas mais imediatas de adoção: a tecnologia não necessariamente substitui uma função inteira, mas pode alterar o tempo e a quantidade de tarefas executadas por uma equipe.
O desafio passa a ser medir o que a IA realmente muda
A pesquisa da AWS mostra também que a adoção ainda encontra obstáculos. 48% das empresas apontam a falta de habilidades digitais e de IA como uma das principais barreiras.
Isso significa que a transformação não depende apenas da disponibilidade de ferramentas. Empresas precisam definir onde a IA será aplicada, preparar profissionais, estabelecer processos de governança e medir se o investimento realmente produz resultados.
Para os trabalhadores, a mudança cria uma consequência paralela: a familiaridade com ferramentas de IA pode se tornar parte do conjunto de competências exigidas em determinadas funções, enquanto tarefas mais rotineiras podem ser progressivamente automatizadas ou reorganizadas.
Os dados não mostram uma substituição generalizada mas mostram mudança
Os estudos disponíveis apontam para um cenário mais complexo do que a ideia de que a IA simplesmente eliminará empregos.
Na América Latina e no Caribe, uma análise da Organização Internacional do Trabalho estima que entre 26% e 38% dos empregos estão expostos à inteligência artificial generativa. Entretanto, apenas cerca de 2% a 5% dos empregos apresentam potencial de automação completa considerando as capacidades atuais da tecnologia.
A maior parte da exposição está relacionada à possibilidade de transformação das tarefas. Em outras palavras, uma profissão pode continuar existindo enquanto parte significativa de suas atividades passa a ser realizada com auxílio de sistemas de IA.
Esse cenário ajuda a colocar os números do Pew em perspectiva. O fato de milhões de pessoas esperarem redução de empregos não significa que os empregos já tenham sido substituídos nessa mesma proporção.
O primeiro impacto pode aparecer na forma de contratar
O estudo de Stanford oferece uma pista importante. Em determinadas ocupações mais expostas à automação, a diferença entre jovens e trabalhadores experientes aparece principalmente na contratação.
Isso muda a pergunta que empresas e profissionais precisam acompanhar. Em vez de observar somente quantas pessoas foram demitidas após a adoção de IA, também será necessário observar quais funções estão deixando de contratar iniciantes, quais competências estão sendo exigidas e quais tarefas passaram a ser automatizadas.
A transformação também pode criar novas oportunidades. O levantamento da PwC sobre empregos relacionados à IA aponta que, no Brasil, a participação de vagas que exigem competências em inteligência artificial aumentou de 1,1% para 3,6% entre 2024 e 2025, quase triplicando em participação.
Esses dados não eliminam o risco de deslocamento em determinadas funções, mas mostram por que o impacto da IA no trabalho não pode ser resumido a uma contagem de empregos perdidos.
O futuro do trabalho começa a ser definido antes de sabermos o resultado

Para os profissionais mais jovens, a questão não é apenas evitar a substituição, mas entender quais competências ganharão valor em um mercado cada vez mais apoiado por IA.
A combinação dos levantamentos revela um paradoxo. A população teme uma redução de empregos ao mesmo tempo em que as empresas aceleram a adoção da tecnologia e relatam ganhos de produtividade.
No Brasil, esse contraste é ainda mais evidente porque a preocupação com a IA está acima da mediana global, enquanto metade das empresas já utiliza algum tipo de inteligência artificial.
Para a Geração Z, o ponto mais sensível pode estar na porta de entrada do mercado. Se determinadas tarefas iniciais forem automatizadas, empresas podem precisar encontrar novas maneiras de formar profissionais, distribuir responsabilidades e desenvolver experiência.
Para as empresas, o desafio será diferente: transformar adoção tecnológica em produtividade sem perder a capacidade de formar talentos. Para os profissionais, a questão passa por entender quais atividades a IA consegue executar e quais capacidades humanas continuam necessárias para supervisionar, decidir, criar e assumir responsabilidade pelos resultados.
Os dados disponíveis ainda não permitem dizer exatamente quantos empregos a inteligência artificial eliminará ou criará. Eles mostram algo mais imediato: a mudança já entrou na percepção das pessoas, nas estratégias das empresas e, em alguns mercados, na forma como trabalhadores jovens estão sendo contratados.
O que está em disputa agora não é apenas o número de empregos que existirão no futuro. É também como será o trabalho que dará acesso a esses empregos.

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