Uma startup brasileira está colocando inteligência artificial no meio de uma das etapas mais demoradas da investigação policial: transformar grandes volumes de imagens e dados dispersos em pistas que possam ser verificadas rapidamente pelas equipes de segurança.

A Pax colocou inteligência artificial dentro da investigação policial

A Pax, startup brasileira de inteligência artificial para segurança pública, ultrapassou a marca de 5 mil ocorrências policiais resolvidas com auxílio de sua plataforma. Segundo os dados divulgados pela empresa, o sistema também está associado a mais de 3,1 mil prisões e 1,7 mil veículos recuperados no Brasil.

Uma nova camada para a investigação

A tecnologia está sendo utilizada em operações nos estados de Goiás, Paraná e Ceará. A proposta é atacar um problema específico das investigações modernas: a polícia já possui uma enorme quantidade de informações, mas encontrar conexões entre elas pode consumir horas ou até dias.

A plataforma permite que policiais façam buscas usando linguagem natural. Em vez de depender apenas de uma placa, fotografia ou reconhecimento facial, o agente pode descrever características de um veículo ou suspeito e procurar correspondências nas informações disponíveis.

A IA apoia, mas não substitui o policial

Esse modelo aproxima a inteligência artificial da rotina operacional. A tecnologia não toma a decisão policial, mas tenta reduzir o tempo necessário para encontrar uma pista que possa ser investigada por uma equipe humana.

O avanço é importante porque desloca a IA de tarefas administrativas para uma atividade em que velocidade e correlação de dados podem alterar o andamento de uma investigação.

O policial pode descrever o que viu e deixar a IA procurar

Policial utilizando uma plataforma de inteligência artificial para pesquisar características de um veículo em uma central de segurança

Busca por características permite que policiais procurem veículos e suspeitos sem depender exclusivamente de placas ou rostos.

A busca começa pela característica observada

Uma das diferenças da Pax está na forma como a informação pode ser pesquisada. Uma vítima pode não ter conseguido memorizar uma placa, mas talvez tenha percebido que o veículo era prata, possuía um adesivo na traseira ou apresentava uma característica incomum.

Esses detalhes podem ser utilizados como parte da busca. A plataforma cruza as características descritas pelo policial com imagens disponíveis e outras informações associadas à ocorrência.

Dados dispersos passam a ser pesquisáveis

A empresa afirma que o sistema também consegue relacionar imagens de câmeras com boletins de ocorrência, mandados e bases de dados utilizadas pelas forças de segurança.

O ganho potencial está no tempo. Em uma investigação convencional, encontrar determinado veículo em várias horas de gravação pode exigir que agentes analisem grandes quantidades de imagens. Com a IA, a busca pode começar pela característica que chamou a atenção da equipe.

Isso muda a função do videomonitoramento. Em vez de simplesmente armazenar imagens para consulta posterior, a rede de câmeras passa a funcionar como uma fonte que pode ser pesquisada a partir de uma pergunta feita pelo policial.

Mais de 5 mil casos mostram que a tecnologia saiu do laboratório

O número de ocorrências é relevante porque mostra que a aplicação da IA na segurança pública já ultrapassou a fase de demonstração tecnológica e entrou em operações com volume significativo.

A escala atingida pela plataforma

Segundo a Pax, somente em agosto de 2026 foram encerrados 810 casos, o maior resultado mensal da história da plataforma. A empresa afirma que o total acumulado passou de 5 mil ocorrências com auxílio da tecnologia.

Os resultados divulgados incluem mais de 3 mil prisões e aproximadamente 1,7 mil veículos recuperados. Esses números reúnem diferentes programas e operações realizados com a plataforma no Brasil.

O problema agora é interpretar o volume

No Paraná, por exemplo, a tecnologia utilizada no programa Olho Vivo já havia alcançado cerca de 1,9 mil casos desde o início da operação em dezembro de 2025.

A escala ajuda a explicar por que esse tipo de aplicação interessa às forças de segurança. O desafio não é apenas instalar mais câmeras, mas conseguir interpretar o enorme volume de informações produzido por elas.

Esse princípio aparece em outras aplicações brasileiras. No próprio Notícia Tech, mostramos como uma IA brasileira usa dados de satélite para prever secas rapidamente, outro exemplo de tecnologia aplicada à interpretação de grandes conjuntos de informações.

A IA não procura apenas placas: ela tenta encontrar pequenas pistas

Painel de investigação policial mostrando imagens de diferentes câmeras conectadas a informações sobre veículos e ocorrências

O sistema da Pax cruza diferentes fontes de informação para encontrar relações que podem orientar uma investigação.

Características incomuns podem virar pistas

A busca por características é importante porque investigações reais raramente começam com todas as informações necessárias.

Um suspeito pode ter sido visto apenas de costas. Um veículo pode estar sem a placa visível. Uma câmera pode ter registrado apenas parte do automóvel. Uma testemunha pode lembrar de um detalhe aparentemente secundário.

A ferramenta também pode eliminar caminhos

A plataforma da Pax tenta transformar essas informações em elementos pesquisáveis. Entre os exemplos apresentados pela empresa estão características como adesivos em veículos, lanternas defeituosas e alterações no trajeto.

Isso amplia o papel da IA dentro da investigação. O sistema não serve apenas para localizar alguém que já foi identificado. Ele pode ajudar a encontrar relações que ainda não estavam evidentes para a equipe.

Há também a possibilidade de descartar suspeitos quando as informações disponíveis indicam que determinada pessoa ou veículo não estava relacionado à cena investigada.

Goiás e Paraná mostram como a tecnologia chega à operação

A experiência em Goiás e Paraná mostra que o uso da IA depende menos de uma tecnologia isolada e mais da capacidade de integrá-la à infraestrutura policial existente.

Goiás foi um dos primeiros testes

A história da Pax ganhou escala em Goiás, onde a tecnologia foi utilizada em operações de segurança pública antes da expansão para outros estados.

Em Luziânia, a empresa relaciona a implantação da tecnologia a uma redução de 27% nos crimes violentos em seis meses. O dado foi apresentado pela própria companhia e deve ser interpretado como resultado associado ao programa, não como prova de que a IA, isoladamente, causou a redução.

Paraná levou a aplicação para outra escala

No Paraná, o programa Olho Vivo passou a utilizar inteligência artificial para apoiar policiais na identificação de suspeitos e recuperação de veículos.

Esses casos mostram uma característica importante da tecnologia: ela depende da infraestrutura que já existe. Câmeras, registros policiais e bases de dados continuam sendo fundamentais.

A IA funciona como uma camada de interpretação sobre essas informações. Em vez de substituir a infraestrutura, procura extrair mais valor dela.

O próximo desafio é transformar escala em segurança com controle

Central de segurança pública com policiais acompanhando múltiplas telas e uma interface de inteligência artificial conectando câmeras e dados

O avanço da IA na segurança pública aumenta a capacidade de análise, mas também exige controle sobre o uso dos dados.

Mais capacidade exige mais governança

O caso da Pax mostra uma mudança importante na aplicação de inteligência artificial no Brasil: sistemas de IA começam a atuar sobre acontecimentos físicos, e não apenas sobre documentos, textos ou tarefas administrativas.

Na segurança pública, isso significa conectar câmeras, veículos, pessoas, ocorrências e mandados para produzir informações que possam ser verificadas pelos agentes.

O potencial é grande, mas a expansão também aumenta a importância da governança. Uma plataforma capaz de cruzar diferentes bases precisa operar com controles de acesso, rastreabilidade e critérios claros.

A decisão final continua sendo humana

Uma correspondência produzida pela máquina não deve ser tratada automaticamente como prova. A IA pode apontar uma pista, mas a investigação precisa confirmar essa pista.

Esse limite é essencial porque uma descrição pode estar errada, uma imagem pode ser inconclusiva e características semelhantes podem aparecer em pessoas ou veículos diferentes.

Essa discussão também está ganhando espaço no Brasil. O Notícia Tech já mostrou como a ANPD pretende usar inteligência artificial para investigar algoritmos, movimento que ajuda a dimensionar o avanço da tecnologia sobre processos que antes dependiam exclusivamente de análise humana.

O movimento acompanha uma tendência maior de adoção de IA por organizações brasileiras. A diferença, neste caso, é que a tecnologia está sendo colocada diretamente em processos de segurança pública.

Para a polícia, o ganho mais importante pode ser simples: diminuir a distância entre uma informação e uma ação.

A marca de 5 mil casos não significa que a IA esteja resolvendo crimes sozinha. Significa que uma ferramenta de inteligência artificial passou a fazer parte do trabalho de equipes policiais em escala relevante.

E esse talvez seja o ponto mais importante da história da Pax: a próxima fronteira da IA brasileira não está apenas em conversar, escrever ou automatizar tarefas. Em determinados setores, ela começa a ser usada para interpretar o mundo real e ajudar profissionais a agir sobre ele mais rapidamente.